metamorfose

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Cena infelizmente comum nos nossos tempos, um homem ensangüentado na calçada, sua carteira jogada ao seu lado. Tudo lá, exceto o dinheiro.
O assassino, provavelmente um garoto faminto desses que a gente vê toda hora mendigando o pão ou cheirando cola. Como eu disse algo cada vez mais comum em nossos conturbados dias.
O que torna nossa cena diferente? O homem morto não era qualquer um. Era um grande amigo das crianças abandonadas à própria sorte em um lugar qualquer da vida.
O que chorava ao seu lado nada mais era do que um conhecido chefe de gangues de garotos que fazem da rua sua casa. Chorava copiosamente maldizendo a sorte que mais uma vez lhe tirava algo precioso que a vida lhe dera, mais uma vez tornava-se órfão quem sequer soube quem foram seus Pais.
Quem o teria morto? Quem poderia matar alguém que lutava para dar um pouco de direitos humanos a quem nem direito a um lar possuía?
Jota X, esse era o nome do nosso quase maior abandonado, não se conformava com as ciladas que a vida lhe preparara. Sem lar, sem amigos em quem pudesse confiar, sem comida, sem droga para "cheirar", fumar ou injetar; tudo isso era perversidade da vida que ele poderia suportar. Contudo, aquela morte foi o derradeiro passaporte para o inferno. Sua derradeira chance de viver de uma forma melhor morreu com seu protetor.
Se existissem balas em sua arma seria fácil resolver o problema, afinal, um tiro na própria cabeça resolveria, pelo menos nesta vida, seus problemas.
Chegaram os policiais, novo inferno. Começaram por algemá-lo e, aos empurrões, foi jogado em uma viatura e encaminhado a um distrito policial, onde, após um monte de perguntas acompanhadas de pancadas, acabou assumindo a autoria da morte de seu protetor. Tudo era mais fácil assim, caso encerrado para as autoridades.
Jota X nem tentou argumentar ou lutar, seria muito pior. Sabia o que o aguardava na prisão e não queria tornar as coisas piores. Pouco lhe importava qual prisão seria, era só outro setor do inferno.
Nem melhor nem pior do que as Ruas, só uma questão de adaptação. Afinal, ele já fora muito bem treinado para suportar todo tipo de perda na vida.
Seu companheiro de cela era bem maior e bem mais forte que ele, sinal de mais problemas. Na certa tentaria abusar sexualmente dele, utilizá-lo como "saco de pancadas" ou as duas coisas. Quem sabe não fosse seu dia de sorte e, na briga que por certo viria, o adversário o matasse.
As horas passavam e nada acontecia. Seria um psicopata, uma bichinha ou um tarado seu colega de cela?
Era barbudo, alto, forte e muito calado, calado demais para o gosto de Jota. Isso era muito mais assustador. Gente calada é sempre mais perigosa. Não dá pra saber o que acontecerá em seguida. Teria que redobrar sua atenção.
Seus olhares se cruzaram. Meu Deus, o que há nos olhos desse homem?
Ele olha como se enxergasse minha alma! Foram os primeiros pensamentos de Jota ao encarar nos olhos o homem à sua frente, que permanecia num mutismo impróprio da cadeia.
E aí, tudo na moral? Disse, tentando não mostrar insegurança na voz e, ao mesmo tempo, buscando começar uma conversa.
Aqueles olhos penetraram ainda mais fundo em sua jovem e sofrida alma. Era impossível desviar a atenção daquele olhar que ia tão fundo em seu ser. Finalmente as primeiras palavras:
- A sua dor não é maior do que a dos que te abandonaram. O sofrimento da carne termina com ela, o do espírito sobrevive à morte. Perdoa seus pais e seus inimigos, pois seu sofrimento terminará com sua vida. O deles durará muito mais, pois vem acompanhado do arrependimento de ter voltado as costas para você e para mim.
Seu futuro é o dos escolhidos, seu passado deve ser esquecido. Seu amor deverá florescer e transformar-se nos mais belos livros que o mundo já leu.
Lágrimas incontroláveis banharam a face de Jota e as palavras não saiam. Adormeceu em seguida, sendo vigiado por aquele par de olhos.
Ao acordar, sentiu tanta vontade de escrever que nem deu pela falta de seu companheiro de cela. Jota X é hoje um grande escritor, aclamado em vários países por suas mensagens de amor e ajuda ao próximo.
Jamais tornou a ver seu companheiro de cela, que segundo o guarda, nunca esteve lá.

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