Lea

domingo, 28 de dezembro de 2008

Seu olhar perdido, focado no vazio das paredes brancas do quarto daquela casa, era o que mais angustiava. Todos os remédios, até mesmo os choques, de nada estavam adiantando...

Ver a mulher amada naquele estado estava acabando com seu ser. De uma hora pra outra ela começara a ficar contemplando o nada.
O silêncio às suas perguntas quando ela "voltava" era preocupante pois parecia que estivera ausente do corpo e só chorava em confusão sobre onde estava e até mesmo sem saber direito quem era.
No último ano os estados de ausência foram tantos que resolveram de comum acordo procurar tratamento clínico, que até agora estava sendo inútil.
Ela estava conversando ou fazendo alguma coisa e repentinamente parava e ficava com o olhar parado no vazio...
Muitas das vezes em que isso ocorria, voltava dizendo frases desconexas e chorava muito. Toda vez que isso acontecia ela ficava enfraquecida por vários dias, como se estivesse trabalhando sem descanso e só parasse quando o corpo desligasse...
Parecia estar com o dobro da idade devido ao stress a que seu corpo era submetido a cada vez que entrava naquele estado.
Ele resolveu procurar outro tipo de ajuda e foi a um homem que diziam realizar curas milagrosas. Foi marcado um dia para que ela fosse levada à casa deste homem, lá chegaram por volta das 12:00 horas, horário em que ela estava sempre consciente. As "viagens" eram sempre após as 17:00 horas.
Ao olhar para Lea, era esse o nome da mulher, João, o homem dos milagres, sentiu seu sangue gelar nas veias sem ter certeza de que sabia o porque.
João conversou com Lea a fim de obter mais informações a respeito do que teria que enfrentar. a conversa foi reservada e nem mesmo Lucas, seu marido, pode saber o teor da conversa.
Ao longo de tres horas, tempo que levou a conversa, Lucas nada pode ouvir ou fazer pois foi gentilmente colocado para o lado de fora da casa.
Quando Lucas foi chamado de volta para a casa, encontrou esperança nos olhos de Lea e, só por isso, já achou que tinha valido a pena ter ido até aquele local.
Naquela noite nada aconteceu e até fizeram amor...
Uma semana depois souberam que o João tinha sofrido um acidente fatal no quintal da casa onde estiveram em busca da cura de Lea.
Lea começou a ter crises cada vez mais demoradas de ausência total e contemplação do vazio.
Agora havia um agravante, muitas das vezes em que "voltava", falava uma lingua em sussurros por todos desconhecida e seus olhos pareciam fora das orbitas tamanho o medo que demonstravam.
Quando a crise terminava ela não lembrava de nada.
Marcas estranhas começaram a surgir pelo corpo de Lea, lembravam figuras geométricas com caracteres estranhos a todos que ela permitia verem.
Lea já não era deixada sozinha pois tentara destruir a própria vida por duas vezes sem sucesso.
Naquela noite Lucas, vencido pelo sono, acordou com Lea conversando naquela lingua que não podia entender com alguém que não podia ver. Os pelos de seu corpo eriçaram-se totalmente, estava muito frio e podia sentir uma presença embora não pudesse ver...
Muito medo e muito frio. Acendeu a luz e Lea olhou para ele com os olhos revirados, de seus lábios os sons guturais da lingua desconhecida denotavam urgência de que fizesse algo que não sabia o que era.
Sentiu algo invisível indo em sua direção. Estaria ficando louco?
Algo que não podia ver estava a poucos passos de alcançá-lo, podia intuir à medida que o frio aumentava...
Lea ficou em pé e começou a brilhar, isso mesmo a brilhar!
Lucas, antes de desmaiar ainda pode ver um vulto muito maior que Lea sendo tragado pela luz que dela saia e iluminava todo o quarto.
Acordou agradecendo por ser apenas um sonho e seus olhos procuraram Lea, que estaria dormindo tranquilamente pois pela manhã ela nunca tivera crises.
Lea não estava, nem ela nem a cama, muito menos o quarto, nem o hospital parecia ser o mesmo onde ela costumava ser tratada...
Onde ele estava?
Onde estava Lea?
- Doutor, o paciente saiu do coma!
Olhou para si mesmo e viu que estava com vários fios ligados ao corpo para monitoramento de seu coração e respiração.
Não conseguia movimentar-se, parecia que não o fazia há muito tempo. Estava tudo confuso, onde estava Lea?
- Lea, quem é Lea? foi a resposta que obteve.
Ainda chocado, recebeu a notícia de que sofrera um acidente e estava naquela cama por quase um ano.
Após a alta no hospital, Lucas reencontrou parentes e amigos e nunca encontrou Lea ou quem a tivesse conhecido.
O acidente que sofrera também estava sem solução pois fora encontrado desmaiado com um corte na cabeça, tremendo de frio e em estado de choque em uma casa abandonada perto de onde estivera acampando com amigos.

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