Cíume

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Era tarde para fugir, ele bem o sabia. Os dois corpos jaziam inertes no quintal para atestar sua convicção.
Fazia algum tempo que suspeitava ser traído por ela. Inicialmente não quisera acreditar, mas suas atitudes eram cada vez mais suspeitas, um sorriso distante, nenhuma preocupação com os horários de chegada dele no lar de ambos e muitas outras pequenas coisas que, no início ele não dera a devida importância.
Certa feita, ao chegar em casa mais cedo, a pegou conversando ao telefone sobre posições e modos de praticar sexo, quis ouvir mais pensando ser com alguma amiga que ela conversava, mas, sua palidez ao vê-lo foi reveladora...
--Com quem você estava falando, disse ao vê-la desligar o telefone apressadamente.
--Com, com, com uma amiga, titubeou ela.
--Qual amiga?
--A janta está pronta, disse ela, mudando de assunto.
Tantas foram as vezes em que as atitudes dela lhe causaram desconfiança que o ciúme começou a morar em seu peito no lugar do machismo que antes lhe dizia que ela não encontraria ninguém melhor que ele em sua vida.
Começou a procurá-la sexualmente mais vezes no mês. A proibiu de usar roupas decotadas ou que mostrassem suas belas pernas. Olhava sempre discretamente o conteúdo de suas bolsas e pacotes.
O demônio do ciúme foi tornando-se cada vez maior e mais forte em seu peito, já não dormia direito e a cobria com toda espécie de desconfianças e perguntas. Dera vexame em vários locais públicos em que estiveram juntos por achar que ela estava olhando para alguém.
A coisa foi ficando pior à medida que o tempo passava. Um dia, ele saiu cedo do serviço e a encontrou conversando com um homem no portão de sua casa. Chegou irado e, só não agrediu a ambos por se tratar de seu irmão mais velho que resolvera visitá-los sem aviso. Sentiu vergonha de si mesmo. Gostaria de lhe pedir perdão, mas não o fez.
Tantas foram as outras vezes que ela cansou e quis a separação, pois já não agüentava mais tanta briga e desconfiança. Ele a agrediu violentamente e garantiu que ela só sairia da vida dele morta.
O clima de terror estava instalado definitivamente em suas vidas. Ele saia para trabalhar e a deixava presa em casa. O telefone foi desligado e o contato com familiares de ambos foi cessado. Ela virou prisioneira de seu próprio lar e ainda era obrigada a servi-lo sexualmente de todas as formas que sua imaginação agora doentia inventava.
--Era assim que eles faziam com você, piranha? Dizia entre um tapa e outro durante o coito forçado.
Não vendo como fugir da situação, por várias vezes ela pensou em dar fim à própria vida para fugir, chegou a tentar, mas ele chegou em tempo de estancar o sangue que fluía aos borbotões de suas veias rasgadas na altura dos pulsos.
Após o tratamento improvisado por ele, vieram as pancadas e a certeza de que o inferno seria eterno.
Após um longo período de agressões e confinamento, surgiu uma pequena esperança; os irmãos dele vieram ver porque eles não iam mais às reuniões de família.
Com a sagacidade que a loucura dá, ele os convenceu de que ela estava desequilibrada e ainda mostrou seus pulsos cortados e os hematomas pelo corpo dela para comprovar sua versão de que ele tudo faria para que a mulher amada não fosse internada ou se matasse.
Com pena dele e pressa de pegar o ônibus, nenhum deles deu importância às lágrimas que corriam de seus olhos. Naquela noite ela apanhou muito mais, pois ele achou que ela queria “dar” para seus irmãos. Seus gritos foram sufocados pelo som ligado bem alto. Pior de tudo era ser estuprada depois de apanhar e ser forçada a gemer alto fingindo sentir prazer pra não apanhar mais...
Um dia, depois de muito beber, ele exagerou na surra diária que ela “merecia por ser tão puta”. Dois dentes quebrados e o desmaio proveniente de um soco que prensou sua cabeça contra a parede.
Ele achou que a havia matado. O sangue não parava de jorrar e ela não acordava...
Em desespero, saiu para pedir ajuda de um amigo de confiança, na pressa, esqueceu de fechar as portas e quando voltou com o amigo, não a encontrou...
A vadia havia fugido com algum amante, sua mente doentia ficava lhe dizendo. O amigo, ao ver tanto sangue, quis saber a verdade, pois não acreditou que tinha sido um assalto o que ocorrera naquele lugar. A curiosidade lhe custou a vida, pois para não ser descoberto ele acabou matando o amigo com algumas facadas.
Em sua mente, ela havia fugido e estaria nos braços de seu amante com certeza e não voltaria mais para o lar dos dois.
O primeiro dos policiais que entrou na casa acabou por levar duas facadas e estava prestes a levar mais uma quando os outros entraram no local e ameaçaram atirar caso a faca não fosse jogada bem longe.
Era questão de minutos para começarem os tiros, ele havia ferido um policial e isso não ficaria impune.
Sua mente tentava achar uma saída e em sua mão estava a faca ensangüentada em atitude ameaçadora.
Aqueles imbecis não entendiam que a vítima era ele? Ela o traíra. Ele só a estava castigando por que ela merecia. E, se nunca a pegara em flagrante, ele tinha certeza e isto bastava...
Foi quando, olhando um pouco mais à direita, a viu amparada por um policial e o vizinho que os havia chamado. A vadia estava logo com dois bem ali na sua frente. Isso só poderia ser vingado com a morte bem lenta, lhe dizia a mente doente e, sem pensar em mais nada arremeteu na direção da traidora para exterminá-la e aos seus novos amantes. O primeiro disparo o atingiu na altura do peito e ele foi jogado de costas no chão. Levantou-se sem entender porque não podia lavar sua honra em paz e continuou na direção dela, sendo atingido agora por vários projéteis.
Com o sangue escorrendo de vários buracos pelo corpo e sentindo a vida lhe escapar, balbuciou:
-- Eu te amo, vagabunda! E, com um filete de sangue escorrendo no canto da boca, morreu.

Ps.: este texto eu escrevi há alguns anos, mas a coisa ainda me parece atual.

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