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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

ETs, Eles Estão Entre Nós, Esperando...

Ele saia pontualmente às 5:00 horas todos os dias da semana e voltava às 24:00 horas. Sempre vinha com uma mala grande que retirava na porta da casa antes de estacionar o carro.
O que passou a intrigar ainda mais um de seus vizinhos foram alguns sons ininteligíveis que ouvia vindos da casa do Estranho, como todos o chamavam. Seu nome era Peter alguma coisa, ninguém conseguia pronunciar seu sobrenome.
Era um zumbido constante e que nunca aumentava ou diminuia, sempre baixinho.
A casa sempre estava às escuras, mesmo quando Peter estava lá.
Ciro, seu vizinho mais curioso, perdia noites de sono observando e ouvindo atentamente os sons vindos da casa de Peter.
Em suas observações notou que Peter, o estranho, era excessivamente branco e parecia emitir um certo brilho nos olhos como o dos animais no escuro. Também notou que o estranho não aparentava possuir pelos pelo corpo, uma vez que, pelo binóculo com que o observava, notou que não possuía barba ou sobrancelhas. Outras partes do corpo, à exceção das mãos e do rosto nunca eram visíveis.
Peter tinha uma descamação no rosto constante e parecia sempre estar com frio pois não tirava o sobretudo que usava sempre que era visto.
Ciro não aguentava mais de tanta curiosidade e decidiu entrar na casa de Peter, o estranho, na sua ausência.
Esperou que Peter saísse no domingo, dia em que todos estão mais preguiçosos e domem até mais tarde, e levou a cabo suas intenções.
Sabia o quanto era errado o que faria mas não hesitou, queria por fim a pelo menos parte daquele mistério que tirava seu sono e o sossego.
Arrombou a porta dos fundos da casa com todo cuidado para não levantar suspeitas. Munido de uma lanterna e uma faca escondida no cinto da calça, entrou.
A escuridão era total, exceto pela luz que a lanterna propiciava. Chegou à sala, nenhum móvel estava lá, o mesmo na cozinha. Subiu as escadas, abriu a porta de um dos quartos e também nenhum móvel havia.
O segundo quarto estava trancado e alguns sons, além do constante zumbido, eram ouvidos, não dava para distinguir o que eram, o medo e vontade de sair dali começaram a tomar conta de Ciro. Quem ou o que estaria produzindo os barulhos?
Se saísse jamais saberia. Foi com esse pensamento que começou a forçar a porta, que custava a ceder.
O suor escorria em bicas, a garganta seca, as pernas e mãos tremulas ante a expectativa...
Os sons cessaram assim que a porta começou a abrir com um rangido que acordaria até defuntos segundo a percepção exaltada de Ciro, que temia o que encontraria no quarto.
Tomou coragem e, antecedido pela luz da lanterna, entrou.
Seu coração parecia que saltaria pela boca quando a luz iluminou um deles. Era um ser pequeno, quase do tamanho de uma criança, com uma cabeça desproporcionalmente grande para o tamanho do corpo. Os olhos eram imensos e sem sobrancelhas ou pálpebras. A boca era diminuta, não possuía orelhas aparentemente. A pele era levemente acinzentada.
A criatura buscou sair da claridade e Ciro não conseguia se mexer, preso à surpresa. Outros vultos eram visíveis e Ciro dirigiu a luz na direção deles. Eram todos semelhantes e não era possível distinguir um do outro, tamanha a semelhança.
Ciro contou cinco seres. A luz da lanterna dançava pelo aposento de um lado para o outro, iluminando cada um dos seres que alcançava.
A lanterna caiu da mão de Ciro quando iluminou um dos cantos do lugar. Ali estavam empilhados ossos de várias pessoas ao lado de um estranho aparelho que emitia um zumbido. Só os ossos, muitos ossos.
Ciro ficou paralisado quando as criaturas se moveram na escuridão em sua direção. Temia ter o mesmo fim dos donos daqueles ossos jogados no canto daquele quarto. Queria correr, gritar, lutar, qualquer coisa menos ficar ali parado.
Só pode aguardar enquanto as criaturas se aproximavam. Um torpor tomava conta dele à medida que chegavam mais perto. Um deles fez um gesto e uma leve e azulada luz transformou a escuridão em penumbra.
Estavam em semicírculo ao seu redor e olhando para seus olhos, unica parte do corpo que podia mover. Se foram horas ou minutos, não saberia dizer, perdeu a noção de tempo.
Peter chegou. A penumbra diminuiu um pouco e ficou acinzentada. Peter começou a olhar para as criaturas e todas saíram do quarto.
Em sua voz sibilante, falou:
- Muito bem, Ciro.
- Por que?
Ciro, achando que não conseguiria falar, articulou uma resposta:
- Curiosidade e burrice. Balbuciou.
- Você sabe que a curiosidade matou o gato, não é?
- Não quero morrer! respondeu Ciro, ainda mais assustado.
- Por que pensa que vai morrer?
- Aqueles ossos...
- São de pessoas há muito falecidas e que usamos para criar um remédio para muitas doenças. Respondeu Peter com algo que pareceu um riso.
- Mas, as criaturas não são humanas. Elas não se alimentam de seres humanos?
- Claro que não, embora adorem carne crua!
- Eles comem carne de animais somente?
- Não. Se faltar a carne animais, eles provavelmente voltarão a comer carne humana.
Ciro, apavorado, afirmou:
- Se você não os alimentar, eles irão devorar as pessoas da vizinhança?
- Primeiro serão os animais de estimação, depois...
Ciro, temendo pelo rumo da conversa, ficou calado e tentava desesperadamente se mexer. Não era possível, só olhos e boca funcionavam. Pensou em gritar por socorro mas temeu o que lhe aconteceria antes do socorro chegar, se viesse.
- Vejamos, falou Peter, te dou a eles como refeição, te deixo em um lugar de onde não voltará ou te mato e enterro no quintal depois de tirar todos os seus ossos?
Ciro gemeu, Suas calças estavam molhadas, soube, mesmo não podendo sentir ou mover-se.
Peter olhou serio para Ciro e revelou:
- Estamos buscando formas de evitar o fim de vocês, humanos. O planeta está morrendo, e com ele, vocês!
- Algumas doenças já extintas no passado estão voltando de forma mais difícil de tratar.
- Os recursos naturais estão caminhando para não mais existirem.
- A natureza, para se manter em funcionamento, está vendo vocês como o inimigo a ser destruído e está mudando as condições para dificultar ao máximo a sua sobrevivência com terremotos, erupções, mudanças climáticas e etc...
- Vocês serão exterminados antes que exterminem tudo!
- Fomos nós que demos a vocês as ferramentas para o desenvolvimento industrial e maneiras para modificar a natureza. Somos responsáveis indiretamente pelo que fazem e viemos tentar ajudar de novo ou exterminá-los de vez!
- A primeira leva de nós veio para estudá-los e ver se o desenvolvimento era sustentável.
- Claro que alguns de nós somos canibais e achamos vocês um prato suculento...
- Estamos nesse momento criando remédios que curarão quase todas as doenças e buscando o contato com os governantes para influenciar a mudança. Caso não funcione, a maioria de vocês virará gado para alimentar várias raças e o restante será usado como escravos.
- Não iremos permitir que seres inferiores destruam o equilíbrio do universo.
- Nossos governantes sabem de vocês?
- Sim. Todos sem exceção sabem de nós. Uns mais, outros menos. Todos sabem.
- Então vocês sempre estiveram entre nós?
- Sim, estudando, ensinando e comendo algumas centenas de vocês!
- O prazo final é breve. Não poderemos adiar mais. Vocês melhoram ou viram comida e escravos.
- Eu não sabia da existência de vocês nem que seriam juízes da raça humana. Não é justo!
- Os Avatares sempre foram enviados a vocês por nós e vocês não lhes deram ouvidos, preferindo rezar sem nunca mudar de verdade.
- Só estamos aguardando que os últimos de boa índole mudem a coisa ou morram tentando...
- Você vai me matar?
Não, seria suspeito e, quando mudarmos essa pequena de muitas bases, ninguém irá acreditar em você, como não acreditam nos abduzidos.
Assim, após um tempo que não soube calcular, Ciro virou mais um dos atormentados que buscam convencer a todos do que viu e ouviu deles, que estão entre nós aguardando...



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sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

O Dia e a Noite, O Sol e a Lua

O Dia se sentia muito solitário e, embora tudo acontecesse sob sua luz, nada o alegrava mais.
Ele ia embora sem nunca olhar para traz em sua rotina diária. Sequer sabia o que acontecia e quem o substituia na vida das criaturas por ele e o Sol iluminadas.
O Criador, por motivos dele, em algumas épocas dava ao dia menos horas para compensar as épocas em que o dia precisava durar mais tempo.
Ocorreu que, sem bem saber porque, o dia olhou para traz para ver quem o substituiria. Qual não foi seu espanto ao ver que uma escuridão esmagadora o seguia.
Apressou o passo sem saber porque e aquele dia foi o mais curto de que se teve notícia.
Cansado de fugir, o Dia parou e resolveu encarar a escuridão que parou também a uma distancia segura, foi a mais longa noite.
O dia intrigado com a atitude da escuridão, resolveu voltar. Descobriu que não poderia.
Que mecanismo era aquele que não o deixava retroceder?
Tentou, tentou e tentou até desistir.
Uma voz se fez ouvir acima de tudo, até pensamentos pararam ao ouvi-la:
- O Dia e a Noite devem seguir seu curso sem jamais se tocarem para que toda a criação funcione, cada qual no seu período!
Noite. Então era aquele o nome de quem vinha quando ele ia, pensou o dia enquanto seguia em frente sem ousar contrariar a voz.
Depois de um tempo de meditação e desconforto, o Dia fez um pedido ao Sol, seu olho e farol da criação:
- Meu amigo e fiel escudeiro, será que voce poderia me fazer um favor pessoal?
O Sol ainda mais brilhante prontamente disse sim.
- Sabe, quando me vou e te levo comigo, vem a Noite com sua total escuridão. Eu fiquei morto de curiosidade em saber como é a Noite e o que acontece com a criação quando ela chega mas não posso voltar. Preciso que voce de uma espiadinha e me conte o que acontece, nem que seja só um minutinho.
O Sol pensou, pensou e pensou.
- Está bem, só uma espiadinha, pois, além de ser seu escudeiro, tenho minhas ordens superiores e não devo contrariá-las.
O Dia era pura excitação e expectativa, não via a hora de ir embora para que o sol pudesse dar uma espiadinha e lhe contasse tudo. Mesmo sabendo que levaria uma bronca, foi embora um pouco mais cedo.
A Noite veio, e com ela a escuridão. O Sol, atendendo ao pedido do Dia, rasgou o veu do ceu noturno, clareando tudo e causando um rebuliço medonho na criação. Foi o primeiro eclipse lunar.
Assustado, o Sol rapidamente fechou o rasgo e fugiu para a companhia de seu mestre, o Dia.
Nada precisou dizer, o dia havia visto tudo e fora advertido pelo Criador para que não se repetisse.
O Dia obedeceu e jamais pediria ao Sol para repetir o ato. Ocorre que o Sol viu a Lua, escudeira da Noite, e se apaixonou por ela. Ela também se apaixonou por ele.
Dia e Noite não sabiam o que fazer. Consultaram o Criador e ele, em sua infinita bondade, mesmo sabendo que noite e dia não poderiam coexistir, permitiu a Noite que, durante um período do ano, fosse e deixasse a Lua no ceu por um tempo a mais para que estivesse junto ao seu amado Sol.
Para que Dia e Noite pudessem conversar por instantes, o Criador também permitiu que, de tempos em tempos por Ele determinados, houvessem eclipses lunares e solares, além de criar o entardecer e o amanhecer onde Dia e Noite se tocam antes de trocarem de lugar.