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terça-feira, 10 de março de 2015

Arauto do Sangue IV: A Traição

A mente de Hugo, o Arauto do Sangue, estava indo embora. Já estava quase impossível ter um único pensamento...
Foi quando uma luz extremamente forte brilhou entre as pedras negras da Besta Ancestral.
O corpo de Hugo, antes jogado ao chão, sem vontade própria foi levantado pela Besta. Seus múltiplos olhos fitaram Hugo por um tempo que lhe pareceu uma eternidade.
A Besta olhava a alma de Hugo, o Arauto de Sangue,  soube disso ao conseguir novamente pensar e observar, as únicas coisas possíveis de se fazer naquele momento.
A Abominação entrou na mente de Hugo e, instantaneamente soube tudo o que o Arauto vivera até ser dominado pela pedra negra.
Algo parecido com um diabólico riso trovejou na mente de Hugo.
A Criatura viu o quanto seu Arauto era voltado para o mal, viu nele muitas possibilidades de uso. Isso salvou Hugo de ser drenado ali mesmo.
Com Hugo em suas poderosas garras, a criatura foi até o lado de fora de onde estavam as pedras negras que estavam drenando a mente e o corpo de Hugo e, enquanto decidia o que fazer com o Arauto do Sangue, o jogou no chão inóspito do lugar. Hugo não conseguia mexer nenhum músculo, tanto pelo medo que sentia como pela influencia das pedras negras.
A hedionda criatura, após algumas horas de reflexão, pegou o corpo de Hugo que estava sendo parcialmente devorado por vermes muito comuns e vorazes do local onde estavam e o ergueu acima da cabeça enquanto pronunciava encantamentos em uma língua ancestral.
Os vermes que ainda estavam no corpo de Hugo e os que estavam no local morreram todos de uma vez.
O Arauto do Sangue, ao ser colocado de volta ao solo, já era um ser diferente de qualquer criatura viva. Era uma cópia menor da Besta que o modificara para seus sanguinários propósitos.
As pedras negras já não exerciam poder algum sobre Hugo, que agora as controlava e elas docilmente lhe obedeceriam a menos que contrariasse o seu senhor bestial.
O Arauto sentiu uma sede infernal que só seria saciada com sangue. Alguns animais estavam próximos do local e Hugo, com o poder mental que agora possuía aproximou-se deles sem que pudessem sair do lugar. Apenas emitiam um som vindo como que um choro.
Após drenar o sangue de todos os que viu, Hugo sentiu sua sede acalmar.
Seu mestre, com uma imitação de risada bestial, aprovou seu Arauto.
Mentalmente Hugo soube que seria eternamente servo daquele ser, cuja maldade podia sentir ainda que estivesse em outro planeta.
Os poderes de Hugo cresciam à medida que drenava sangue de suas vítimas.
Um plano audacioso começou a se formar em sua mente ainda mais doentia e inescrupulosa. Enfrentaria a Besta de igual pra igual quando surgisse a oportunidade. até então a serviria como o mais fiel dos servos.
A restrição feita pelo Celestial  que aprisionara a Besta em Ricarium através de magia ancestral não impedia Hugo de sair do planeta. A Besta, mesmo ciente de que seu Arauto a trairia assim que tivesse uma chance, enviava Hugo a missões onde as pedras negras não poderiam ir pois precisavam dos círculos de pedra do Celestial para poderem seguir seu rastro de luz.
Hugo rivalizava seu mestre em crueldade. Os locais onde era enviado após sua passagem eram completamente devastados. Hugo passou a odiar toda forma de vida e a olhar tudo como fonte de energia. Até as plantas tinham a energia drenada por Hugo, que, embora preferisse o sangue de todos os seres que o possuíam, também aprendeu a extrair a seiva vital das árvores. Em todos os mundos visitados por Hugo, o Arauto do Sangue, a vida deixava de existir antes de sua partida.
Com uma crueldade sem limites, Hugo brincava com a comida antes de tudo destruir. Chegava aos diferentes planetas como se fosse um enviado dos céus que a todos iria premiar ou castigar. Construía com seu poder mental todo um sistema religioso ligado a sacrifícios e mortes de inocentes até que o sangue restante estivesse contaminado pela adrenalina da culpa e da ganancia, o que o tornava especialmente delicioso para Hugo. Seu mestre recebia o sangue dos sacrifícios e Hugo reservava para si o sangue dos sacrificadores. Ou por tédio ou por achar sua missão cumprida, na maioria das vezes, após um ano local, o Arauto exterminava toda forma de vida em apenas dois dias locais. Muitos seres eram apenas dilacerados para aumentar o medo dos outros e, assim tornar o sangue mais rico em adrenalina, ou seja, mais saboroso.
Hugo era agora o Arauto favorito da Besta aprisionada em Ricarium. As pedras negras estavam vibrando intensamente cada vez que Hugo voltava a Ricarium. Elas o temiam e reverenciavam assim como os 12 outros Arautos da Besta, únicos remanescentes dos  Sanguis, uma das duas castas de Ricarium.
Hugo sentia que seu poder e influência sobre os outros Arautos e as pedras negras seriam de grande valia para enfrentar a Besta Ancestral. O que o Arauto não sabia era que a Besta sabia de cada pensamento seu e de todos os outros Arautos. As pedras negras também vibravam mais intensamente quando Hugo estava perto porque a Criatura assim o queria. Nenhum dos Arautos, inclusive Hugo, seria páreo para a Abominação Ancestral presa em Ricarium pelo Celestial.
Hugo, há um ano local em Ganimedes, uma das luas de Júpiter, o maior planeta do sistema solar,
entediado, matou dezenas de habitantes das mais variadas formas só para se distrair. O local, um imenso templo com a imagem de Hugo, cultuado por eles por temor e desejo de poder, possuía o formato de uma arena onde cabiam milhares de seres, amontoados e em pé ao redor. No local havia, no centro um imenso fosso e uma espécie de bacia, para aonde escorria o sangue dos degolados seres sacrificados apenas para aplacar a fúria do Arauto. No fosso eram jogados os corpos após terem escorrido todo seu precioso sangue na bacia imensa.
Após as coletas de sangue dos sacrificados, todos viam um objeto parecido com uma imensa carruagem partir em direção das estrelas. Era o recipiente criado pelo Arauto para levar o sangue ao seu mestre.
O Arauto soube assim que chegou a Ganimedes que o sangue esverdeado dos habitantes quando submetido ao "stress" extremo, tornava-se levemente avermelhado e criava enzimas que o tornavam "venenoso", causando uma espécie de torpor que deixava o Arauto sonolento e com os poderes diminuídos.
O Arauto do Sangue viu ai sua oportunidade de enfrentar a Besta com chances de sucesso. Coletou o máximo que pode do sangue expondo antes os sacrificados a intenso "stress" para garantir a toxidade do sangue e o enviou ao mestre, que, devido as limitações dos outros Arautos e as pedras negras, estava já há algum tempo com o estoque de sangue baixo.
Em dois dias O Arauto do Sangue exterminou cinco milhões de seres em Ganimedes, todos sob intenso "stress" e enviou a coleta a seu mestre.
A Besta ingeriu quase a metade do sangue que seu Arauto favorito trouxera. Parte foi dada aos 12 outros Arautos e parte foi usada para banhar as pedras negras, que passaram a emitir um brilho esverdeado intenso.
Todos menos Hugo foram tomados por uma letargia incontrolável e foram caindo um a um dominados pelo sono. A Bestial criatura foi o último a se deixar vencer.
O Arauto ordenou às pedras que drenassem a energia vital dos outros Arautos, cada uma o que a servia. A de Hugo há muito já não existia pois fora absorvida pelo seu mestre a fim de deixar seu Arauto preferido com mais liberdade de ação.
Assim fizeram as pedras negras e todos os Arautos foram esvaziados de energia vital.
Só estavam vivos e atentos Hugo e as pedras negras, que sem seus Arautos e sem sangue puro, tornavam-se cada vez mais fracas.
Foram dias até que as pedras negras deixassem de pulsar e representar perigo a quem atacasse seu criador.
Hugo pacientemente aguardou o momento de atacar seu mestre, a Besta Ancestral. Usando todo seu poder, o Arauto, armado de uma imensa espada que pertencia à Besta, desferiu um golpe no pescoço que separou o corpo da cabeça da criatura medonha.
Com um riso enlouquecido, Hugo se sentiu a criatura mais poderosa da criação. Nada mais havia a temer, derrotara o ser mais poderoso e maldoso que conhecera. Sentiu-se vingado pela morte de todos que conhecia e pelo extermínio da humanidade.
Para ter certeza de que seria o único sobrevivente daquele lugar, resolveu ir ao núcleo do planeta e explodir tudo com um artefato mil vezes mais poderoso que a mais poderosa bomba atômica. Armou o artefato e partiu para o espaço de onde apreciaria sua obra destruidora.
A explosão não aconteceu. O tempo passava e nada da explosão. O Arauto desceu novamente ao planeta para verificar o porque.
Assim que pousou na superfície, garras envolveram seu pescoço e o ar lhe faltou de imediato.
A Besta o erguera do chão e o fitava com seus múltiplos olhos, as garras apertando cada vez mais...
O Arauto sentia as unhas entrando em sua carne e a vida indo embora cada vez mais rápido. Olhou ao redor e viu os outros 12 Arautos olhando seu fim com as medonhas faces demonstrando crueldade e prazer.
Acordou com a criatura despachando os outros 12 cada um para lugares onde estavam os templos circulares criados pelo Celestial.Agora junto com as pedras para apressar a destruição e a coleta de sangue. Seus  poderes se equiparavam aos do traidor.
A Besta olhou para Hugo assim que o último Arauto do Sangue partiu. Hugo não podia se mexer, seu corpo pesava toneladas.
 Sentia uma sede avassaladora, tudo faria para saciá-la. Drenaria o próprio sangue se conseguisse.
Uma imensa cicatriz era visível no pescoço da Abominação. Como era possível ela estar viva?
Aliás, por que Hugo ainda continuava vivo depois de trair seu mestre?
A Besta pousou seus vários olhos em Hugo e mentalmente lhe contou que ambos estavam amaldiçoados para sempre. Ele porque era imortal, Hugo porque a Criatura assim o queria.
Mostrou ao Arauto as diferentes cicatrizes e buracos que não cicatrizavam em seu abominável corpo. Ao longo dos séculos muitos tentaram matar a criatura sem sucesso, os ferimentos que não cicatrizavam haviam sido feitos pelo Celestial, que também não poderia matar a Besta.
A Besta confessou a Hugo que sabia de seus planos para matá-lo e até os incentivou, só para fazer o Arauto ter falsas esperanças e sofrer mais um pouco.
O peito de Hugo estava ferido e seu pescoço também. Foi avisado pela Besta que as feridas jamais cicatrizariam.Diminuiriam à medida que o Arauto drenasse sangue novo, mas jamais cicatrizariam.
Eram agora e para sempre coparticipes da materialização dos piores pesadelos possíveis. Tinham toda a eternidade para se odiarem e compartilharem a sina.
Um como mestre, outro como Arauto.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Arauto do Sangue III: A Origem da Pedra Negra

Eles eram um povo esquecido em um ponto esquecido da constelação de Virgem, cujo planeta, Ricarium, era banhado por Spica, a estrela mais brilhante da constelação.
Os Ricariunois tinham uma divisão de castas bem simples, os Phari e os Sanguis. Os Phari cultuavam a alegria e a paz e buscavam constantemente o progresso de todos, já os Sanguis, que eram a maioria, viviam para a magia e faziam de tudo para aprender cada vez mais a usar a natureza a seu favor, inclusive seres elementais com os quais mantinham estreita relação. A paz entre as duas castas sempre estava por um fio, os Phari não aprovavam o uso de magia embora consultassem os Sanguis quando precisavam de respostas para demandas.
Como os Phari possuiam os recursos financeiros, cada vez que os Sanguis precisavam ir a uma das luas de Ricarium, seu planeta natal em busca de minerais e plantas especiais, eram obrigados a satisfazer os caprichos dos donos das naves espaciais. Os pedidos iam de pequenos favores ao sacrifício de vários Sanguis em batalhas mortais para diversão dos Phari.
Ao longo da história houveram muitas guerras entre as castas e em todas a vitória foi dos Phari, donos da tecnologia. Os Sanguis foram reduzidos a uma população de 1200 na ultima e mais sangrenta de todas as batalhas. Morreram 1200000 Sanguis para que 1200 conseguissem acesso a uma caverna que levava às profundezas do planeta.
Havia lá um templo mais antigo que o mais antigo morador de Ricarium. Lá os Sanguis conseguiriam sua vingança...
As escrituras falavam de um ser ali adormecido que tinha o poder de um Deus e poderia dividir com eles seu poder e conhecimentos. O ser era uma estátua de 15 metros e semblante demoníaco como nunca se viu. o corpo era totalmente coberto por escamas e espinhos grandes. Os pés eram circulares e possuiam um único dedo. As mãos eram garras com tres dedos cada, terminando em unhas que lembavam punhais. Possuia 6 olhos e uma cabeça descomunal.
Os Sanguis eram grandes, 2,5 metros de altura mas pareciam anões comparados à criatura.
O medo tomou conta deles, a maioria teria voltado atras se não fosse a influência de Oppida, seu mestre. Aos gritos ele ordenou silêncio a todos e começou o ritual que despertaria a criatura de seu sono milenar enquanto seus iguais morriam aos montes na superfície do planeta.
Os olhos do medonho ser começaram a se abrirem, sua mão direita, em uma velocidade inconcebível, agarrou o mestre dos apavorados Sanguis e o levou até a altura de seu rosto.
Oppida sentiu o hálito da morte bem de perto. Seu sangue batia a uma velocidade tão alta que ele suava sangue.
A criatura, em agradecimento pelo seu despertar, fez com que Oppida e todos os seus seguidores derramassem seu sangue cortando os pulsos e se alimentou dele. Nenhum deles pode resistir ao poder mental da criatura. Depois de saciada a sede por sangue, os reviveu com uma forma parecida com a sua, aberrações em tamanho menor e com apetite infinito por sangue. Oppida recebeu instruções de como criar a pedra através de alquimia ancestral e magia negra. Oppida e seus seguidores criaram 1200 pedras negras que seriam portais que os levaria a planetas onde, em tempo ancestral um ser de poder quase infinito se dedicou a ajudar no desenvolvimento das criaturas que neles viviam.
A criatura era inimiga deste ser e fora derrotada por ele em tempos imemoriais e aprisionada por encantamento em sono profundo, que seria eterno não fosse a intervenção de Oppida e os seus.
A criatura ensinou a Oppida e seus seguidores como viajar através da magia da pedra negra e ir para os portais semelhantes a Stonehange da Terra, colocados pelo ser ancestral nos mundos para viajar e levar ajuda, paz e conhecimento aos diferentes seres humanoides pelo cosmo infinito. No passado ancestral ele era cultuado nesses monumentos e aguardado com ansiedade pelos líderes dos povos visitados.
Antes de derrotar o bestial ser devorador de sangue, temendo ser seguido por ele aos locais onde oferecia sua ajuda, o ser celestial deixou em cada um dos templos portais parte de sua pele com um encantamento que tornaria impossível à Besta de sair do portal.
O Ser Celestial derrotou a Besta e a aprisionou em Ricarium, um planeta distante da constelação de Virgem e nunca mais voltou pois não seria necessário. A Besta jamais acordaria por seus próprios meios. Caso acordasse, ela exterminaria a todos e dormiria de novo quando não houvesse mais sangue para drenar. A Besta não poderia sair de Ricarium, os encantamentos cuidariam disso.
A Besta sabia que não poderia sair de Ricarium e sua vingança seria o extermínio de todos os humanoides ajudados pelo Ser Celestial. Para isso criou os 1200 filhos de seu ódio pelos humanoides protegidos do Celestial. As pedras seriam encolhidas e enviadas aos templos de todo o universo, pegando carona no rastro de luz do Celestial.
Ao chegar nos templos ela exerceria influência sobre os nativos para que de lá fosse retirada e banhada em sangue, que na quantidade exata, abriria caminho para as criaturas entrarem e também enviaria a pedra de Volta a Ricarium de tempos em tempos para manter a Besta desperta e poderosa. Cada pedra tinha autonomia para visitar 2 mundos antes de voltar a Ricarium para ser esvaziada do sangue coletado e receber energia da Besta para as viagens entre os mundos.
Na Terra, local onde o ser Celestial costumava voltar a cada 4000 anos, sacerdotes de um tempo mais antigo que a história descobriram a pedra negra e resistiram ao seu poder o suficiente para descobrir que o pedaço de pele do Ser Ancestral tinha poderes sobre a pedra negra. Depois de tentarem destruí-la de todas as formas sem sucesso, enrolaram a pedra no couro e a mantiveram longe dos olhos das pessoas por vários séculos.
Os Guardiões da pedra negra tinham vida curta e sofrida. Ela não os dominava mas drenava suas vidas e raros eram os Guardiões que viviam até os 30 anos.
Com o passar dos séculos, os Guardiões descobriram que a pedra devia ficar longe da luz, embrulhada no couro e que ficava menos forte quando os Guardiões eram todos de uma mesma família. Os laços de sangue, amor e a disposição de morrerem uns pelos outros a enfraqueciam.
Mulheres jamais deveriam se aproximar da pedra no período menstrual sob pena de serem dominadas por ela. Foram várias as mulheres sacrificadas por perderem o controle nesse período e tentarem fazer sacrifícios para a pedra.
A Pedra Negra foi mantida sob controle a custa de muito sacrifício e dor. Magos Negros da Terra souberam da existência dela e de tudo fizeram para conseguir o artefato. Sempre foram derrotados e a pedra era mudada para lugares de difícil acesso à magia.
Os guardiões tiveram seu temor aumentado quando os Magos Negros criaram jogos de RPG tendo a Pedra Negra como objeto de infinito poder e despertaram nos jogadores a ideia da existência da pedra e, consequentemente, a curiosidade e o desejo por possuí-la.
Templos e Igrejas foram invadidos, bibliotecas destruídas e todo tipo de tentativas aconteceram para achar a pedra negra, até mesmo os soldados de Hitler procuravam pela pedra durante a guerra.
Os Guardiões a esconderam em locais óbvios e a pedra ficou esquecida por muito tempo, tornando-se uma lenda pra grande maioria.
Ficou escondida até Marco a descobrir e contar para Hugo e Israel, que exterminaram os últimos guardiões dela para se tornarem donos do poder da Pedra Negra...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

ETs, Eles Estão Entre Nós, Esperando...

Ele saia pontualmente às 5:00 horas todos os dias da semana e voltava às 24:00 horas. Sempre vinha com uma mala grande que retirava na porta da casa antes de estacionar o carro.
O que passou a intrigar ainda mais um de seus vizinhos foram alguns sons ininteligíveis que ouvia vindos da casa do Estranho, como todos o chamavam. Seu nome era Peter alguma coisa, ninguém conseguia pronunciar seu sobrenome.
Era um zumbido constante e que nunca aumentava ou diminuia, sempre baixinho.
A casa sempre estava às escuras, mesmo quando Peter estava lá.
Ciro, seu vizinho mais curioso, perdia noites de sono observando e ouvindo atentamente os sons vindos da casa de Peter.
Em suas observações notou que Peter, o estranho, era excessivamente branco e parecia emitir um certo brilho nos olhos como o dos animais no escuro. Também notou que o estranho não aparentava possuir pelos pelo corpo, uma vez que, pelo binóculo com que o observava, notou que não possuía barba ou sobrancelhas. Outras partes do corpo, à exceção das mãos e do rosto nunca eram visíveis.
Peter tinha uma descamação no rosto constante e parecia sempre estar com frio pois não tirava o sobretudo que usava sempre que era visto.
Ciro não aguentava mais de tanta curiosidade e decidiu entrar na casa de Peter, o estranho, na sua ausência.
Esperou que Peter saísse no domingo, dia em que todos estão mais preguiçosos e domem até mais tarde, e levou a cabo suas intenções.
Sabia o quanto era errado o que faria mas não hesitou, queria por fim a pelo menos parte daquele mistério que tirava seu sono e o sossego.
Arrombou a porta dos fundos da casa com todo cuidado para não levantar suspeitas. Munido de uma lanterna e uma faca escondida no cinto da calça, entrou.
A escuridão era total, exceto pela luz que a lanterna propiciava. Chegou à sala, nenhum móvel estava lá, o mesmo na cozinha. Subiu as escadas, abriu a porta de um dos quartos e também nenhum móvel havia.
O segundo quarto estava trancado e alguns sons, além do constante zumbido, eram ouvidos, não dava para distinguir o que eram, o medo e vontade de sair dali começaram a tomar conta de Ciro. Quem ou o que estaria produzindo os barulhos?
Se saísse jamais saberia. Foi com esse pensamento que começou a forçar a porta, que custava a ceder.
O suor escorria em bicas, a garganta seca, as pernas e mãos tremulas ante a expectativa...
Os sons cessaram assim que a porta começou a abrir com um rangido que acordaria até defuntos segundo a percepção exaltada de Ciro, que temia o que encontraria no quarto.
Tomou coragem e, antecedido pela luz da lanterna, entrou.
Seu coração parecia que saltaria pela boca quando a luz iluminou um deles. Era um ser pequeno, quase do tamanho de uma criança, com uma cabeça desproporcionalmente grande para o tamanho do corpo. Os olhos eram imensos e sem sobrancelhas ou pálpebras. A boca era diminuta, não possuía orelhas aparentemente. A pele era levemente acinzentada.
A criatura buscou sair da claridade e Ciro não conseguia se mexer, preso à surpresa. Outros vultos eram visíveis e Ciro dirigiu a luz na direção deles. Eram todos semelhantes e não era possível distinguir um do outro, tamanha a semelhança.
Ciro contou cinco seres. A luz da lanterna dançava pelo aposento de um lado para o outro, iluminando cada um dos seres que alcançava.
A lanterna caiu da mão de Ciro quando iluminou um dos cantos do lugar. Ali estavam empilhados ossos de várias pessoas ao lado de um estranho aparelho que emitia um zumbido. Só os ossos, muitos ossos.
Ciro ficou paralisado quando as criaturas se moveram na escuridão em sua direção. Temia ter o mesmo fim dos donos daqueles ossos jogados no canto daquele quarto. Queria correr, gritar, lutar, qualquer coisa menos ficar ali parado.
Só pode aguardar enquanto as criaturas se aproximavam. Um torpor tomava conta dele à medida que chegavam mais perto. Um deles fez um gesto e uma leve e azulada luz transformou a escuridão em penumbra.
Estavam em semicírculo ao seu redor e olhando para seus olhos, unica parte do corpo que podia mover. Se foram horas ou minutos, não saberia dizer, perdeu a noção de tempo.
Peter chegou. A penumbra diminuiu um pouco e ficou acinzentada. Peter começou a olhar para as criaturas e todas saíram do quarto.
Em sua voz sibilante, falou:
- Muito bem, Ciro.
- Por que?
Ciro, achando que não conseguiria falar, articulou uma resposta:
- Curiosidade e burrice. Balbuciou.
- Você sabe que a curiosidade matou o gato, não é?
- Não quero morrer! respondeu Ciro, ainda mais assustado.
- Por que pensa que vai morrer?
- Aqueles ossos...
- São de pessoas há muito falecidas e que usamos para criar um remédio para muitas doenças. Respondeu Peter com algo que pareceu um riso.
- Mas, as criaturas não são humanas. Elas não se alimentam de seres humanos?
- Claro que não, embora adorem carne crua!
- Eles comem carne de animais somente?
- Não. Se faltar a carne animais, eles provavelmente voltarão a comer carne humana.
Ciro, apavorado, afirmou:
- Se você não os alimentar, eles irão devorar as pessoas da vizinhança?
- Primeiro serão os animais de estimação, depois...
Ciro, temendo pelo rumo da conversa, ficou calado e tentava desesperadamente se mexer. Não era possível, só olhos e boca funcionavam. Pensou em gritar por socorro mas temeu o que lhe aconteceria antes do socorro chegar, se viesse.
- Vejamos, falou Peter, te dou a eles como refeição, te deixo em um lugar de onde não voltará ou te mato e enterro no quintal depois de tirar todos os seus ossos?
Ciro gemeu, Suas calças estavam molhadas, soube, mesmo não podendo sentir ou mover-se.
Peter olhou serio para Ciro e revelou:
- Estamos buscando formas de evitar o fim de vocês, humanos. O planeta está morrendo, e com ele, vocês!
- Algumas doenças já extintas no passado estão voltando de forma mais difícil de tratar.
- Os recursos naturais estão caminhando para não mais existirem.
- A natureza, para se manter em funcionamento, está vendo vocês como o inimigo a ser destruído e está mudando as condições para dificultar ao máximo a sua sobrevivência com terremotos, erupções, mudanças climáticas e etc...
- Vocês serão exterminados antes que exterminem tudo!
- Fomos nós que demos a vocês as ferramentas para o desenvolvimento industrial e maneiras para modificar a natureza. Somos responsáveis indiretamente pelo que fazem e viemos tentar ajudar de novo ou exterminá-los de vez!
- A primeira leva de nós veio para estudá-los e ver se o desenvolvimento era sustentável.
- Claro que alguns de nós somos canibais e achamos vocês um prato suculento...
- Estamos nesse momento criando remédios que curarão quase todas as doenças e buscando o contato com os governantes para influenciar a mudança. Caso não funcione, a maioria de vocês virará gado para alimentar várias raças e o restante será usado como escravos.
- Não iremos permitir que seres inferiores destruam o equilíbrio do universo.
- Nossos governantes sabem de vocês?
- Sim. Todos sem exceção sabem de nós. Uns mais, outros menos. Todos sabem.
- Então vocês sempre estiveram entre nós?
- Sim, estudando, ensinando e comendo algumas centenas de vocês!
- O prazo final é breve. Não poderemos adiar mais. Vocês melhoram ou viram comida e escravos.
- Eu não sabia da existência de vocês nem que seriam juízes da raça humana. Não é justo!
- Os Avatares sempre foram enviados a vocês por nós e vocês não lhes deram ouvidos, preferindo rezar sem nunca mudar de verdade.
- Só estamos aguardando que os últimos de boa índole mudem a coisa ou morram tentando...
- Você vai me matar?
Não, seria suspeito e, quando mudarmos essa pequena de muitas bases, ninguém irá acreditar em você, como não acreditam nos abduzidos.
Assim, após um tempo que não soube calcular, Ciro virou mais um dos atormentados que buscam convencer a todos do que viu e ouviu deles, que estão entre nós aguardando...



comente, é bom e eu gosto!

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Arauto do Sangue: A Pedra Negra

Olhando paralisado para aquela pedra negra, Hugo viu tudo que perdera para consegui-la. Matara seu melhor amigo e companheiro de tantas outras aventuras para não ter que dividir a pedra negra que daria poderes incomparáveis ao seu dono.
O sangue de muita gente fora derramado pela posse da pedra. Hugo e Israel, seu melhor amigo, haviam matado uma família inteira para tomá-la. Até um bebe fora morto pela dupla.
Sentiria saudades de Israel, pensava Hugo. Foram muitas aventuras e desventuras até descobrirem a existência da pedra negra citada em um livro de RPG.
Marco, outro parceiro de jogos e algumas aventuras, foi quem lhes falou onde poderia estar a pedra negra do jogo. Havia uma casa próxima de onde moravam em que as pessoas tinham um comportamento assustado e desafiador. Os vizinhos evitavam os moradores da casa que sempre tinha as luzes apagadas fosse qual fosse o horário do dia ou da noite, nem mesmo quando o bebe chorava elas eram acesas. Muitos diziam ouvir sons estranhos vindos da casa e os animais domésticos enlouqueciam e fugiam do contato com os moradores da casa nas raras vezes em que saiam, geralmente a noite.
Marco, por morar mais próximo da casa escura, como todos a chamavam, observara por um bom tempo a casa e seus moradores. Havia um comodo que mesmo a luz do dia não iluminava quando a janela era esquecida aberta. Certa vez viu um dos meninos com a pedra na mão e os olhos fora das orbitas olhando hipnotizado para a pedra negra. Ao seu redor tudo era escuridão. Só se via o garoto e a pedra.
Marco quase morreu de susto quando o garoto olhou para ele. Não conseguia se mexer ou articular palavras, só medo, um terror inexplicável pelo que viu ou imaginou ter visto nos olhos do garoto por um minuto que lhe pareceu toda uma eternidade no inferno. A coisa parou quando o pai do garoto tomou a pedra de suas mãos, o agrediu com um soco e fechou a janela. Quando o pai do garoto tocou na pedra, a claridade tomou conta  de todo o ambiente e Marco julgou ter visto vários seres medonhos olhando em sua direção.
Apavorado, correu e contou para os amigos, que, a partir daquele momento, decidiram sem precisarem falar, que seriam os donos da pedra negra.
Armados até os dentes, Hugo e Israel invadiram a casa e começaram a atirar em tudo que se movia na escuridão agora eliminada pelas lanternas e buracos feitos no teto da casa pelos tiros que a dupla disparava com esse fim. Mataram todos, até o bebe, que mais parecia um rascunho de demônio. O pai foi o ultimo, morreu na porta do quarto medonhamente escuro onde a pedra era guardada.
A pedra estava enrolada em uma espécie de couro onde se viam estranhos caracteres em uma língua cuneiforme, provavelmente escrita de um povo esquecido pelo tempo.
Hugo, ao tocar na pedra, perdeu os sentidos. Israel, mais prudente, pegou na parte coberta pelo couro e nada sofreu, aparentemente. Sentiu vontade de matar o amigo ali mesmo enquanto ele estava desmaiado. Não o fez.
Quando Hugo acordou estava na casa de Israel, que olhava hipnotizado para a pedra negra, parecendo estar em outro lugar. Tão absorto estava que não percebeu a faca em suas mãos e o brilho da cobiça em seu olhar. Foram tantas facadas desferidas no amigo que Hugo perdeu a conta.
O sangue de Israel espirrou na pedra, que passou a brilhar em seu tom escuro, parecendo viva.
Hugo só conseguia pensar, não podia se mover. A pedra o possuíra, disso ele tinha certeza. Viu que nunca seria dono dela e sim o contrário, estava irremediavelmente preso a ela enquanto durasse sua vida.
Sangue, ha muito tempo ela não era banhada por ele.
Seus malditos guardiões a privaram por seculos do sangue.
Precisava estar banhada em sangue para dominar o mundo e permitir a vinda deles para esse planeta.
O sangue da humanidade alimentaria seus senhores por meses...
Precisava de seu mais novo escravo para começarem os rituais de sacrifício e muito sangue humano para estar mergulhada.
Ordenou a Hugo que destruísse o pergaminho sagrado que a impedira de dominar completamente a família que era sua guardiã e sabia controlar sua ânsia por sangue humano. Por muitas gerações eles a deixaram sem sangue, o que diminuia sua força. Usara os olhos de um dos guardiões para fazer contato com Marco naquele dia.
O normal seria um dos guardiões ter matado Marco para que não dissesse a ninguém que vira a pedra negra. Erro que custou a vida de todos os guardiões que a vigiavam dia e noite.
Hugo saiu da casa com a pedra no bolso interno de seu sobretudo negro, invadiu um berçário e sangrou todas as crianças que viu, coletando o sangue derramado em uma banheira onde cuidadosamente colocou a pedra. Policiais invadiram o prédio, mais sangue que Hugo ofereceu a pedra negra, que já não cabia na banheira. Ela crescera até o tamanho de um homem. Dentro da pedra já se viam vultos aguardando...
A pedra negra emitia um som rouco e durador que atraiu centenas de pessoas ao prédio. Elas faziam fila para entrar no berçário e se ajoelhavam na frente da pedra para que Hugo lhes decepasse a cabeça, fazendo seu sangue jorrar, encharcando-a cada vez mais de sangue.
Hugo chorava, queria fugir dali mas não podia, sua vontade não contava, era a pedra no comando.
O poder da pedra aumentava exponencialmente na medida que era banhada em sangue. Agora já eram milhares na fila para serem sacrificados.
Hugo viu o primeiro deles sair da pedra, um horror indescritível tomou conta de seu ser. Para descrever o indescritível não existem palavras. Ele teria infartado não fosse a pedra a mante-lo sob controle.
O olhar da criatura era um passeio nos nove circulos do inferno, não viu outras emoções, só um ódio indescritível pelos seres humanos e uma fome insaciável por sangue.
Sentiu que morreria naquele momento.
A criatura o olhou por mais um instante e ele soube da terrível verdade. Não morreria. Depois de trazer todos para servirem o próprio sangue para a criatura e seus companheiros teria seu corpo modificado para buscar mundos em companhia da pedra negra onde existissem humanóides para sevirem de alimento.
Seria o arauto da maldita raça de tomadores de sangue.
Alguns que chegavam na fila tinham as cabeças arrancadas pelas próprias criaturas em sua sede insaciável. Já havia 12 deles no berçário. O cheiro de sangue era  insuportável. Outros homens estavam sendo usados para empilharem os cadáveres, seriam drenados por ultimo.
A pedra parara de crescer e se tornara avermelhada em um tom próximo ao do sangue humano.
Os 12 seres monstruosos não paravam de beber o sangue nem de matar as pessoas que formavam a fila tal qual gado em abatedouro, sabiam que iriam morrer mas não podiam lutar contra isso.
Alguns meses depois as criaturas eram 1200 e a raça humana estava próxima da extinção.
Hugo e a pedra negra foram enviados a uma lua em uma galáxia distante onde seres muito parecidos com os humanos dançavam e brincavam em torno de um templo de pedras circulares...