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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Arauto do Sangue III: A Origem da Pedra Negra

Eles eram um povo esquecido em um ponto esquecido da constelação de Virgem, cujo planeta, Ricarium, era banhado por Spica, a estrela mais brilhante da constelação.
Os Ricariunois tinham uma divisão de castas bem simples, os Phari e os Sanguis. Os Phari cultuavam a alegria e a paz e buscavam constantemente o progresso de todos, já os Sanguis, que eram a maioria, viviam para a magia e faziam de tudo para aprender cada vez mais a usar a natureza a seu favor, inclusive seres elementais com os quais mantinham estreita relação. A paz entre as duas castas sempre estava por um fio, os Phari não aprovavam o uso de magia embora consultassem os Sanguis quando precisavam de respostas para demandas.
Como os Phari possuiam os recursos financeiros, cada vez que os Sanguis precisavam ir a uma das luas de Ricarium, seu planeta natal em busca de minerais e plantas especiais, eram obrigados a satisfazer os caprichos dos donos das naves espaciais. Os pedidos iam de pequenos favores ao sacrifício de vários Sanguis em batalhas mortais para diversão dos Phari.
Ao longo da história houveram muitas guerras entre as castas e em todas a vitória foi dos Phari, donos da tecnologia. Os Sanguis foram reduzidos a uma população de 1200 na ultima e mais sangrenta de todas as batalhas. Morreram 1200000 Sanguis para que 1200 conseguissem acesso a uma caverna que levava às profundezas do planeta.
Havia lá um templo mais antigo que o mais antigo morador de Ricarium. Lá os Sanguis conseguiriam sua vingança...
As escrituras falavam de um ser ali adormecido que tinha o poder de um Deus e poderia dividir com eles seu poder e conhecimentos. O ser era uma estátua de 15 metros e semblante demoníaco como nunca se viu. o corpo era totalmente coberto por escamas e espinhos grandes. Os pés eram circulares e possuiam um único dedo. As mãos eram garras com tres dedos cada, terminando em unhas que lembavam punhais. Possuia 6 olhos e uma cabeça descomunal.
Os Sanguis eram grandes, 2,5 metros de altura mas pareciam anões comparados à criatura.
O medo tomou conta deles, a maioria teria voltado atras se não fosse a influência de Oppida, seu mestre. Aos gritos ele ordenou silêncio a todos e começou o ritual que despertaria a criatura de seu sono milenar enquanto seus iguais morriam aos montes na superfície do planeta.
Os olhos do medonho ser começaram a se abrirem, sua mão direita, em uma velocidade inconcebível, agarrou o mestre dos apavorados Sanguis e o levou até a altura de seu rosto.
Oppida sentiu o hálito da morte bem de perto. Seu sangue batia a uma velocidade tão alta que ele suava sangue.
A criatura, em agradecimento pelo seu despertar, fez com que Oppida e todos os seus seguidores derramassem seu sangue cortando os pulsos e se alimentou dele. Nenhum deles pode resistir ao poder mental da criatura. Depois de saciada a sede por sangue, os reviveu com uma forma parecida com a sua, aberrações em tamanho menor e com apetite infinito por sangue. Oppida recebeu instruções de como criar a pedra através de alquimia ancestral e magia negra. Oppida e seus seguidores criaram 1200 pedras negras que seriam portais que os levaria a planetas onde, em tempo ancestral um ser de poder quase infinito se dedicou a ajudar no desenvolvimento das criaturas que neles viviam.
A criatura era inimiga deste ser e fora derrotada por ele em tempos imemoriais e aprisionada por encantamento em sono profundo, que seria eterno não fosse a intervenção de Oppida e os seus.
A criatura ensinou a Oppida e seus seguidores como viajar através da magia da pedra negra e ir para os portais semelhantes a Stonehange da Terra, colocados pelo ser ancestral nos mundos para viajar e levar ajuda, paz e conhecimento aos diferentes seres humanoides pelo cosmo infinito. No passado ancestral ele era cultuado nesses monumentos e aguardado com ansiedade pelos líderes dos povos visitados.
Antes de derrotar o bestial ser devorador de sangue, temendo ser seguido por ele aos locais onde oferecia sua ajuda, o ser celestial deixou em cada um dos templos portais parte de sua pele com um encantamento que tornaria impossível à Besta de sair do portal.
O Ser Celestial derrotou a Besta e a aprisionou em Ricarium, um planeta distante da constelação de Virgem e nunca mais voltou pois não seria necessário. A Besta jamais acordaria por seus próprios meios. Caso acordasse, ela exterminaria a todos e dormiria de novo quando não houvesse mais sangue para drenar. A Besta não poderia sair de Ricarium, os encantamentos cuidariam disso.
A Besta sabia que não poderia sair de Ricarium e sua vingança seria o extermínio de todos os humanoides ajudados pelo Ser Celestial. Para isso criou os 1200 filhos de seu ódio pelos humanoides protegidos do Celestial. As pedras seriam encolhidas e enviadas aos templos de todo o universo, pegando carona no rastro de luz do Celestial.
Ao chegar nos templos ela exerceria influência sobre os nativos para que de lá fosse retirada e banhada em sangue, que na quantidade exata, abriria caminho para as criaturas entrarem e também enviaria a pedra de Volta a Ricarium de tempos em tempos para manter a Besta desperta e poderosa. Cada pedra tinha autonomia para visitar 2 mundos antes de voltar a Ricarium para ser esvaziada do sangue coletado e receber energia da Besta para as viagens entre os mundos.
Na Terra, local onde o ser Celestial costumava voltar a cada 4000 anos, sacerdotes de um tempo mais antigo que a história descobriram a pedra negra e resistiram ao seu poder o suficiente para descobrir que o pedaço de pele do Ser Ancestral tinha poderes sobre a pedra negra. Depois de tentarem destruí-la de todas as formas sem sucesso, enrolaram a pedra no couro e a mantiveram longe dos olhos das pessoas por vários séculos.
Os Guardiões da pedra negra tinham vida curta e sofrida. Ela não os dominava mas drenava suas vidas e raros eram os Guardiões que viviam até os 30 anos.
Com o passar dos séculos, os Guardiões descobriram que a pedra devia ficar longe da luz, embrulhada no couro e que ficava menos forte quando os Guardiões eram todos de uma mesma família. Os laços de sangue, amor e a disposição de morrerem uns pelos outros a enfraqueciam.
Mulheres jamais deveriam se aproximar da pedra no período menstrual sob pena de serem dominadas por ela. Foram várias as mulheres sacrificadas por perderem o controle nesse período e tentarem fazer sacrifícios para a pedra.
A Pedra Negra foi mantida sob controle a custa de muito sacrifício e dor. Magos Negros da Terra souberam da existência dela e de tudo fizeram para conseguir o artefato. Sempre foram derrotados e a pedra era mudada para lugares de difícil acesso à magia.
Os guardiões tiveram seu temor aumentado quando os Magos Negros criaram jogos de RPG tendo a Pedra Negra como objeto de infinito poder e despertaram nos jogadores a ideia da existência da pedra e, consequentemente, a curiosidade e o desejo por possuí-la.
Templos e Igrejas foram invadidos, bibliotecas destruídas e todo tipo de tentativas aconteceram para achar a pedra negra, até mesmo os soldados de Hitler procuravam pela pedra durante a guerra.
Os Guardiões a esconderam em locais óbvios e a pedra ficou esquecida por muito tempo, tornando-se uma lenda pra grande maioria.
Ficou escondida até Marco a descobrir e contar para Hugo e Israel, que exterminaram os últimos guardiões dela para se tornarem donos do poder da Pedra Negra...

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Um dos Caminhos

Eles se conheceram em um barzinho com música ao vivo.
Veio a vontade de estarem cada vez mais juntos após um período em que se conversaram e foram se conhecendo mais.
Não houve nenhum beijo, carícias ou qualquer toque mais prolongado, apenas era maravilhoso conversarem e beberem juntos. Os assuntos eram os mais comuns; filmes, noticiário, livros e experiencias que cada um tinha. Ele tinha 30 anos e ela 16.
Em uma noite ela exagerou na bebida e, por estar com uma saia muito curta, deixou ver mais do que faria se sóbria estivesse. Ele viu e aquilo mexeu muito com seus instintos. Foi necessário todo autocontrole para não ultrapassar os limites que haviam entre eles sem que tivessem combinado.
Ela se mostrava totalmente disponível. Ele procurava desviar o olhar e as intenções...
Quando ela se inclinou para lhe dar um beijo no rosto após uma frase qualquer ele pode ver parte dos belos e pequenos seios dela. O controle ficou ainda mais difícil.
Inventando um compromisso que não existia ele disse que precisava ir. Ela, com os braços em seu pescoço, pediu para dançarem uma música. Ele tentou resistir, precisava ficar longe daquele corpo que até então não despertara seus desejos. Adorava sua companhia mas, até então não a via como mulher e sim como uma pessoa muito boa de se ter por perto.
Cedeu e dançou com ela com a grande maioria das pessoas os olhando com emoções diversas. A maioria achando errado pois a diferença de idade era visível e estavam muito colados durante a dança.
Ele queria fugir dali de qualquer jeito e a chamou para ir pra fora. Ela aceitou e, abraçando-o bem forte, saiu agarrada a ele como se temesse que evaporasse de seus braços.
Deixaram o bar com a maioria dos olhares em suas costas. Caminharam até o ponto de ônibus, com ela cada vez mais colada no corpo dele e ele cada vez mais preocupado em se controlar. Dizia a si mesmo que era a bebida que estava comandando as atitudes dela e os pensamentos e desejos dele.
O ônibus dela veio primeiro, ela sequer fez menção de entrar, embora ele desse sinal e o veículo parasse. Quando veio o dele ela não o deixou entrar. Já era tarde e ficaria perigoso estarem ali, ele tentou argumentar ao que ela rebateu dizendo que estarem juntos era mais importante que tudo.
Ela tentou beijá-lo nos lábios, ele fugiu. Ela abraçada a ele, juntou mais ainda seus quadris, sentindo a excitação que ele já não podia mais esconder ou resistir.
Ofegante ele a beijou como nunca havia beijado alguém, suas mãos acariciando o corpo dela com sofreguidão. A eletricidade entre os dois iluminaria uma cidade inteira tamanha era a intensidade.
Havia um prédio em construção próximo ao ponto de ônibus e foi lá que fizeram amor até saciarem seus corpos cada vez mais sedentos um do outro. Ela com restos de sangue ainda nas pernas, ele com todo desejo e culpa do mundo, pegaram um táxi e foram para um hotel. Após três dias sem verem a luz do sol e mal se alimentarem, decidiram que era hora de sair dos braços um do outro.
Ele a deixou em casa e seguiu rumo a sua após longo e apaixonado beijo.
Os pais da menina o acusaram de pedofilia e abuso sexual de menor.
Ela protestou, chorou e ele foi preso.
Na cadeia ele foi agredido até a morte pelos outros detentos que, devido a uma gorda propina oferecida pelo pai da menina, foram informados pelo carcereiro tratar-se de um maníaco sexual.
Ela abandonou a casa dos pais e foi morar nas ruas, buscando a morte sem coragem de cometer suicídio. Passou a usar drogas, beber até perder a consciência, sofreu todo tipo de abuso e cometeu vários pequenos delitos.
Sonhava todo dia em estar nos braços daquele que não deixava de amar mesmo estando morto. Ele podia ter morrido para todos, não para ela. Queria matar os pais mas não tinha coragem, queria morrer mas não conseguia...
Um dia, não tendo onde dormir, decidiu ficar em uma igreja. Por volta de três horas da manhã acordou com uma luz intensamente azul e viu dentro dela um vulto. Julgou ser seu amado que vinha buscá-la e se aproximou dela. Um homem de mais ou menos 30 anos com barba até o peito e totalmente vestido de linho branco sorriu para ela, que não conseguia se mexer.
Aquele sorriso fez instantaneamente pararem suas dores, até a fome passou...
A voz não saia da boca, parecia sair de sua imaginação:
- Seu sofrimento termina hoje! Preciso de você, filha do meu amor!
Ela não conseguia falar. Como poderia portador de tanta paz, amor, caridade e tudo que há de bom precisar dela, se só o seu sorriso lhe dava vontade de viver?
Ele, como que ouvindo seus pensamentos, respondeu:
- Preciso de você, filha do meu amor, para contar aos que já esqueceram de que os amo e pedir novamente que amem aos outros como a si mesmos e a Deus sobre todas as outras coisas. São esses os pedidos e as leis que pedi que seguissem antes de me crucificarem mas a maioria já me esqueceu para seguirem outros homens que os escravizam usando a mensagem que deixei.
- Filha do meu amor, seu sofrimento chegou a mim como uma oração verdadeira e estou aqui.
- Suas lágrimas prepararam um caminho de luz que muitos poderão percorrer se você permitir.
Ela, aos prantos, disse:
- Você deve estar enganado. Existem tantas mulheres nas igrejas orando todos os dias, por que eu, que nem lembro de rezar?
- O amor verdadeiro é a maior chave para abrir as portas do céu e você o tem dentro de si. Isso já me bastaria, mas você é uma das minhas escolhidas. Eu não escolho os preparados, preparo os escolhidos.
O sorriso veio dos lábios dele de novo e a luz a banhou por inteiro.
Ela acordou pela manhã com o padre olhando para seu rosto com fisionomia brava e, ao mesmo tempo acolhedora.
Até sua morte ela se dedicou a espalhar o amor que havia recebido e que se multiplicava cada vez mais. Perdoou os pais, os assassinos de seu amado e todos os que dela abusaram e, em paz, viveu para os outros até voltar ao Criador de tudo e de todos.