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terça-feira, 10 de março de 2015

Arauto do Sangue IV: A Traição

A mente de Hugo, o Arauto do Sangue, estava indo embora. Já estava quase impossível ter um único pensamento...
Foi quando uma luz extremamente forte brilhou entre as pedras negras da Besta Ancestral.
O corpo de Hugo, antes jogado ao chão, sem vontade própria foi levantado pela Besta. Seus múltiplos olhos fitaram Hugo por um tempo que lhe pareceu uma eternidade.
A Besta olhava a alma de Hugo, o Arauto de Sangue,  soube disso ao conseguir novamente pensar e observar, as únicas coisas possíveis de se fazer naquele momento.
A Abominação entrou na mente de Hugo e, instantaneamente soube tudo o que o Arauto vivera até ser dominado pela pedra negra.
Algo parecido com um diabólico riso trovejou na mente de Hugo.
A Criatura viu o quanto seu Arauto era voltado para o mal, viu nele muitas possibilidades de uso. Isso salvou Hugo de ser drenado ali mesmo.
Com Hugo em suas poderosas garras, a criatura foi até o lado de fora de onde estavam as pedras negras que estavam drenando a mente e o corpo de Hugo e, enquanto decidia o que fazer com o Arauto do Sangue, o jogou no chão inóspito do lugar. Hugo não conseguia mexer nenhum músculo, tanto pelo medo que sentia como pela influencia das pedras negras.
A hedionda criatura, após algumas horas de reflexão, pegou o corpo de Hugo que estava sendo parcialmente devorado por vermes muito comuns e vorazes do local onde estavam e o ergueu acima da cabeça enquanto pronunciava encantamentos em uma língua ancestral.
Os vermes que ainda estavam no corpo de Hugo e os que estavam no local morreram todos de uma vez.
O Arauto do Sangue, ao ser colocado de volta ao solo, já era um ser diferente de qualquer criatura viva. Era uma cópia menor da Besta que o modificara para seus sanguinários propósitos.
As pedras negras já não exerciam poder algum sobre Hugo, que agora as controlava e elas docilmente lhe obedeceriam a menos que contrariasse o seu senhor bestial.
O Arauto sentiu uma sede infernal que só seria saciada com sangue. Alguns animais estavam próximos do local e Hugo, com o poder mental que agora possuía aproximou-se deles sem que pudessem sair do lugar. Apenas emitiam um som vindo como que um choro.
Após drenar o sangue de todos os que viu, Hugo sentiu sua sede acalmar.
Seu mestre, com uma imitação de risada bestial, aprovou seu Arauto.
Mentalmente Hugo soube que seria eternamente servo daquele ser, cuja maldade podia sentir ainda que estivesse em outro planeta.
Os poderes de Hugo cresciam à medida que drenava sangue de suas vítimas.
Um plano audacioso começou a se formar em sua mente ainda mais doentia e inescrupulosa. Enfrentaria a Besta de igual pra igual quando surgisse a oportunidade. até então a serviria como o mais fiel dos servos.
A restrição feita pelo Celestial  que aprisionara a Besta em Ricarium através de magia ancestral não impedia Hugo de sair do planeta. A Besta, mesmo ciente de que seu Arauto a trairia assim que tivesse uma chance, enviava Hugo a missões onde as pedras negras não poderiam ir pois precisavam dos círculos de pedra do Celestial para poderem seguir seu rastro de luz.
Hugo rivalizava seu mestre em crueldade. Os locais onde era enviado após sua passagem eram completamente devastados. Hugo passou a odiar toda forma de vida e a olhar tudo como fonte de energia. Até as plantas tinham a energia drenada por Hugo, que, embora preferisse o sangue de todos os seres que o possuíam, também aprendeu a extrair a seiva vital das árvores. Em todos os mundos visitados por Hugo, o Arauto do Sangue, a vida deixava de existir antes de sua partida.
Com uma crueldade sem limites, Hugo brincava com a comida antes de tudo destruir. Chegava aos diferentes planetas como se fosse um enviado dos céus que a todos iria premiar ou castigar. Construía com seu poder mental todo um sistema religioso ligado a sacrifícios e mortes de inocentes até que o sangue restante estivesse contaminado pela adrenalina da culpa e da ganancia, o que o tornava especialmente delicioso para Hugo. Seu mestre recebia o sangue dos sacrifícios e Hugo reservava para si o sangue dos sacrificadores. Ou por tédio ou por achar sua missão cumprida, na maioria das vezes, após um ano local, o Arauto exterminava toda forma de vida em apenas dois dias locais. Muitos seres eram apenas dilacerados para aumentar o medo dos outros e, assim tornar o sangue mais rico em adrenalina, ou seja, mais saboroso.
Hugo era agora o Arauto favorito da Besta aprisionada em Ricarium. As pedras negras estavam vibrando intensamente cada vez que Hugo voltava a Ricarium. Elas o temiam e reverenciavam assim como os 12 outros Arautos da Besta, únicos remanescentes dos  Sanguis, uma das duas castas de Ricarium.
Hugo sentia que seu poder e influência sobre os outros Arautos e as pedras negras seriam de grande valia para enfrentar a Besta Ancestral. O que o Arauto não sabia era que a Besta sabia de cada pensamento seu e de todos os outros Arautos. As pedras negras também vibravam mais intensamente quando Hugo estava perto porque a Criatura assim o queria. Nenhum dos Arautos, inclusive Hugo, seria páreo para a Abominação Ancestral presa em Ricarium pelo Celestial.
Hugo, há um ano local em Ganimedes, uma das luas de Júpiter, o maior planeta do sistema solar,
entediado, matou dezenas de habitantes das mais variadas formas só para se distrair. O local, um imenso templo com a imagem de Hugo, cultuado por eles por temor e desejo de poder, possuía o formato de uma arena onde cabiam milhares de seres, amontoados e em pé ao redor. No local havia, no centro um imenso fosso e uma espécie de bacia, para aonde escorria o sangue dos degolados seres sacrificados apenas para aplacar a fúria do Arauto. No fosso eram jogados os corpos após terem escorrido todo seu precioso sangue na bacia imensa.
Após as coletas de sangue dos sacrificados, todos viam um objeto parecido com uma imensa carruagem partir em direção das estrelas. Era o recipiente criado pelo Arauto para levar o sangue ao seu mestre.
O Arauto soube assim que chegou a Ganimedes que o sangue esverdeado dos habitantes quando submetido ao "stress" extremo, tornava-se levemente avermelhado e criava enzimas que o tornavam "venenoso", causando uma espécie de torpor que deixava o Arauto sonolento e com os poderes diminuídos.
O Arauto do Sangue viu ai sua oportunidade de enfrentar a Besta com chances de sucesso. Coletou o máximo que pode do sangue expondo antes os sacrificados a intenso "stress" para garantir a toxidade do sangue e o enviou ao mestre, que, devido as limitações dos outros Arautos e as pedras negras, estava já há algum tempo com o estoque de sangue baixo.
Em dois dias O Arauto do Sangue exterminou cinco milhões de seres em Ganimedes, todos sob intenso "stress" e enviou a coleta a seu mestre.
A Besta ingeriu quase a metade do sangue que seu Arauto favorito trouxera. Parte foi dada aos 12 outros Arautos e parte foi usada para banhar as pedras negras, que passaram a emitir um brilho esverdeado intenso.
Todos menos Hugo foram tomados por uma letargia incontrolável e foram caindo um a um dominados pelo sono. A Bestial criatura foi o último a se deixar vencer.
O Arauto ordenou às pedras que drenassem a energia vital dos outros Arautos, cada uma o que a servia. A de Hugo há muito já não existia pois fora absorvida pelo seu mestre a fim de deixar seu Arauto preferido com mais liberdade de ação.
Assim fizeram as pedras negras e todos os Arautos foram esvaziados de energia vital.
Só estavam vivos e atentos Hugo e as pedras negras, que sem seus Arautos e sem sangue puro, tornavam-se cada vez mais fracas.
Foram dias até que as pedras negras deixassem de pulsar e representar perigo a quem atacasse seu criador.
Hugo pacientemente aguardou o momento de atacar seu mestre, a Besta Ancestral. Usando todo seu poder, o Arauto, armado de uma imensa espada que pertencia à Besta, desferiu um golpe no pescoço que separou o corpo da cabeça da criatura medonha.
Com um riso enlouquecido, Hugo se sentiu a criatura mais poderosa da criação. Nada mais havia a temer, derrotara o ser mais poderoso e maldoso que conhecera. Sentiu-se vingado pela morte de todos que conhecia e pelo extermínio da humanidade.
Para ter certeza de que seria o único sobrevivente daquele lugar, resolveu ir ao núcleo do planeta e explodir tudo com um artefato mil vezes mais poderoso que a mais poderosa bomba atômica. Armou o artefato e partiu para o espaço de onde apreciaria sua obra destruidora.
A explosão não aconteceu. O tempo passava e nada da explosão. O Arauto desceu novamente ao planeta para verificar o porque.
Assim que pousou na superfície, garras envolveram seu pescoço e o ar lhe faltou de imediato.
A Besta o erguera do chão e o fitava com seus múltiplos olhos, as garras apertando cada vez mais...
O Arauto sentia as unhas entrando em sua carne e a vida indo embora cada vez mais rápido. Olhou ao redor e viu os outros 12 Arautos olhando seu fim com as medonhas faces demonstrando crueldade e prazer.
Acordou com a criatura despachando os outros 12 cada um para lugares onde estavam os templos circulares criados pelo Celestial.Agora junto com as pedras para apressar a destruição e a coleta de sangue. Seus  poderes se equiparavam aos do traidor.
A Besta olhou para Hugo assim que o último Arauto do Sangue partiu. Hugo não podia se mexer, seu corpo pesava toneladas.
 Sentia uma sede avassaladora, tudo faria para saciá-la. Drenaria o próprio sangue se conseguisse.
Uma imensa cicatriz era visível no pescoço da Abominação. Como era possível ela estar viva?
Aliás, por que Hugo ainda continuava vivo depois de trair seu mestre?
A Besta pousou seus vários olhos em Hugo e mentalmente lhe contou que ambos estavam amaldiçoados para sempre. Ele porque era imortal, Hugo porque a Criatura assim o queria.
Mostrou ao Arauto as diferentes cicatrizes e buracos que não cicatrizavam em seu abominável corpo. Ao longo dos séculos muitos tentaram matar a criatura sem sucesso, os ferimentos que não cicatrizavam haviam sido feitos pelo Celestial, que também não poderia matar a Besta.
A Besta confessou a Hugo que sabia de seus planos para matá-lo e até os incentivou, só para fazer o Arauto ter falsas esperanças e sofrer mais um pouco.
O peito de Hugo estava ferido e seu pescoço também. Foi avisado pela Besta que as feridas jamais cicatrizariam.Diminuiriam à medida que o Arauto drenasse sangue novo, mas jamais cicatrizariam.
Eram agora e para sempre coparticipes da materialização dos piores pesadelos possíveis. Tinham toda a eternidade para se odiarem e compartilharem a sina.
Um como mestre, outro como Arauto.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Arauto do Sangue II: A Chegada Em Huram

Hugo e a pedra negra apareceram num monumento semelhante a Stonehenge em Huram, pequena lua de Angredoes, um dos planetas de uma galáxia a vários anos-luz da Terra.
A gravidade parecia semelhante a da Terra, pouco importava, Hugo intuia que, fossem quais fossem as condições do lugar, seu corpo se adaptaria.
Olhou para a pedra, tão pequena que caberia em sua mão, pensou em destrui-la, mas teve medo de que caso o fizesse, também morresse.
Ainda estava nítido em sua mente o cenário que vivera e presenciara na Terra. Todos os amigos e conhecidos agora deveriam estar mortos. A culpa maior era dele que, querendo os poderes dela, destruira a vida de Israel, seu melhor amigo. O sangue de Israel fora o primeiro a alimentar os poderes da pedra negra, que trouxera, sabe-se lá de onde, as horrendas criaturas através da passagem nela criada com o sangue de incontáveis pessoas. As criaturas chegaram uma a uma até o total de 1200, número suficiente para exterminar a vida na Terra. A sede por sangue era interminável, sugerindo a Hugo um longo período sem se alimentarem. Seriam as horrendas criaturas capazes de ficarem sem alimento por séculos?
Como aquela família que havia exterminado em companhia de Israel tinha conseguido manter a pedra negra inativa por tanto tempo?
As respostas a essas perguntas talvez significassem vingança e liberdade.
A pedra precisava de sangue, Hugo soube assim que saiu do centro do monumento e olhou os seres muito semelhantes aos humanos dançando ao redor pelo lado de fora. Queria avisá-los do perigo mas não podia, a pedra negra o comandava e, provavelmente não saberia falar a lingua deles.
Os seres pararam de dançar e olhavam aquele estranho ser parecido com eles só que muito mais alto e todo manchado com um líquido viscoso que lembrava sangue. A pedra negra, escondida na mão do Arauto vibrava levemente.
Hugo, agora era o Arauto do Sangue, aquele que precederia a extinção de todos aqueles seres, inocentes ou não.
Caminhou para a saída da formação de pedras secularmente arranjadas em círculo, como a nossa Stonehenge. Quem as colocara ali? Quem colocou as da formação semelhante na Terra?
Ao chegar á parte onde sairia do círculo de pedras, seu corpo foi ficando mais pesado, cada passo parecia pesar toneladas, tudo em seu corpo era dor. Sentiu que cairia se continuasse. Não podia parar, a pedra não permitiria, ele soube.
Não poderia ficar e não sabia se conseguiria dar o passo seguinte, suas pernas pesavam toneladas...
Um dos seres, parecendo o que seria um ancião na Terra, aproximou-se de Hugo e o saudou na língua local. O Arauto, sem saber como, entendeu a saudação e respondeu que vinha das estrelas para aquela lua, Huram, trazendo a paz que seus senhores haviam prometido. Também disse, sem poder comandar o que sua boca dizia, que precisaria de sacrifícios de sangue para a aplacar a ira que haviam despertado por não obedecerem as regras dos Deuses Ancestrais. Prometeu ao Ancião que ele seria poderoso e teria tudo que quisesse, bastando para isso, que os sacrifícios começassem já naquele dia. O sangue de bebes nascidos no dia anterior seriam todos impuros e deveriam ser sacrificados aos Deuses Ancestrais. O sangue deveria ser todo retirado através de um corte na garganta que separasse a cabeça do corpo de cada bebe, que deveria estar  preso pelos pés e com a cabeça para baixo. Seriam 12 bebes de cada vez. Tudo aconteceria em um altar que já existia nas montanhas próximas ao local onde estavam, era só levar os bebes e fazer o sacrifício quando a pedra negra estivesse no centro do altar encaixada em um orifício a ela destinado.
Hugo chorava e as lágrimas não saiam, só as palavras que sua boca dizia mas que ele não comandava, era a pedra falando através dele.
O Ancião, entre temeroso e determinado, estendeu a mão para pegar a pedra negra das mãos de Hugo ao comando dela dado pela boca de Hugo, o Arauto do  Sangue.
Hugo queria de toda forma reagir, não conseguia.
Os seres, que lembravam os druidas terrestres, partiram com a pedra e Hugo não conseguia sair do círculo de pedras, cada vez que tentava, seu corpo ficava mais pesado e dolorido. Simplesmente não podia se aproximar da saída que, ironicamente não possuía portas, nem precisava, a barreira era invisível...
Não parava de pensar nos horrores que viriam. A sede de poder estava nos olhos do Ancião. Ele faria tudo o que fora ordenado. O Arauto sabia. Ele era a testemunha viva do poder da cobiça.
Só restava a ele aguardar e ser novamente testemunha de outro massacre em nome da cobiça de alguns e da fome insaciável de outros.
Sentado no centro da formação de pedras, local onde podia ficar sem dor ou peso excessivo dos membros inferiores, o Arauto do Sangue viu alguém se aproximando do local. A fêmea era linda e corajosa, enquanto todos seguiram o Ancião, ela ficou e se aproximou de Hugo sem demonstrar medo. O Arauto levantou-se e aguardou, era quase tudo que poderia fazer.
Nada do que ela disse Hugo entendeu. Tentou falar e, para sua surpresa, a voz saiu:
- Saia daqui e destrua a pedra, ela vai fazer todos serem exterminados!
Ela nada entendeu. Hugo lembrou de Israel e de Marco, ambos tinham o hábito de dizerem que, se não fossem entendidos, desenhariam.
Com o dedo, desenhou o horror que estava nítido em sua mente em detalhes no chão.
A "mulher" olhou, olhou e, assustada fez gestos para o Arauto, perguntando através deles se era o que aconteceria caso continuassem a contrariar os Deuses Ancestrais.
Hugo, desesperado, negou com a cabeça, aquilo aconteceria quando a pedra negra estivesse banhada em sangue, explicou através de gestos.
Ela, finalmente entendendo Hugo, fez gesto para que ele a seguisse. O Arauto não podia sair do círculo sob pena de morrer, explicou, através de gestos novamente.
Ela se foi e ele ficou fazendo  o que podia fazer. Esperar.
Em um tempo que lhe pareceu uma eternidade, ela voltou em companhia de outros seres, dentre eles um que não parecia ser daquela lua.
O ser caminhou diretamente na direção do Arauto do Sangue e, como quem reconhece um inimigo, interrogou mentalmente:
- Quanto tempo até começar?
Hugo respondeu também mentalmente:
- Já começou, assim que o sangue das crianças banhar a pedra negra, eles vão começar a vir e não haverá mais como resistir ao poder da pedra e depois ao deles, quando ficarem fortes o suficiente.
- Sabe como combatê-los?
- Não sei, quando fui mandado para cá, eles já haviam exterminado praticamente toda a raça humana.
- Minha missão é proteger essa lua com minha vida. Precisa haver uma forma...
- Espere, na Terra havia um grupo de pessoas que mantinha a pedra negra longe da luz e do sangue, envolta em uma espécie de couro com uns caracteres estranhos. Também o círculo de pedras estava parcialmente destruído.... Falou Hugo, sabendo que talvez não sobrevivesse à destruição do mesmo.
- Sou Cauã, o protetor de Huram! Exclamou o ser.
Cauã fora deixado em Huram pelos Guardiões da Natureza há vinte anos e deveria observar a formação onde estavam e destruir os seres que por ali chegariam. Os Guardiões eram seres gigantescos que não caberiam naquela lua de forma alguma. Tão gigantescos eram que não eram percebidos.
A descrição que o Arauto do Sangue deu dos seres horríveis que entrariam em Huram através da pedra negra batia com a que os Guardiões lhe deram. Possuía poderes que o tornavam um superser comparado aos demais mas sabia que não poderia enfrentar os Ricariunois, nome dos drenadores de sangue, tão antigos quanto os Guardiões.
Era Cauã também um Arauto, só que com a missão de impedir o ataque e, consequentemente, o extermínio de toda uma raça.
- Você sabe que tenho que destruir esse lugar não é?
- Sei, e também sei que provavelmente morrerei com isso. Vá em frente.
Cauã com gesto pediu a todos que se afastassem e, com força sobrenatural para um humano, começou a derrubar a formação ancestral.
De longe, um dos seguidores do Ancião que levara embora a pedra negra, correu para avisar seu mestre do que estava acontecendo. O Ancião, com os olhos revirados e enegrecidos, ordenou que um grupo atacasse os destruidores do Templo enquanto apressava os preparativos para os sacrifícios.
A batalha foi sangrenta, muitas mortes depois e um templo parcialmente destruido, com pedras de algumas toneladas espalhadas pelo chão e o Arauto do Sangue encolhido no centro foi o resultado.
Cauã, mesmo muito ferido era o único em pé ao término da luta.
De seu ponto de observação, Hugo tudo assistiu sem poder intervir. Cada pedra que caia do círculo era aumento de dores em seu corpo. Quando Cauã atirou uma das pedras de toneladas sobre um grupo que acabara de matar o último dos seus aliados, Hugo viu algo que estava sob a pedra.
Era um couro igual ao que vira enrolado na pedra negra no dia em que matou Israel.
Chamou Cauã e lhe mostrou o que poderia salvar Huram do extermínio, pelo menos enquanto a pedra nele estivesse enrolada.
Cauã queria terminar de destruir a formação de pedras, foi ai que Hugo lhe contou que na Terra a formação igual àquela estava muito mais destruída e, ainda assim, provavelmente todos foram exterminados. Era mais urgente envolver a pedra negra naquele couro e mantê-la longe da luz.
Cauã foi ao local onde os sacrifícios já haviam começado, o sangue de 12 bebes já banhava a pedra, que já estava adquirindo o brilho avermelhado que precederia a vinda de seus mestres, os Ricariunois, e sua sede insaciável de sangue. Seu tamanho já era o dobro de quando chegara em Huram.
O Ancião e seus seguidores atacaram Cauã que os dizimou e foi mortalmente ferido pelo Ancião que morreu em suas mãos. Cauã em seus últimos momentos, enrolou a pedra no couro e a enterrou o mais profundo que pode em uma caverna próxima dali. Morreu com um sorriso no rosto. Sorriso dos que cumprem a missão que lhes foi dada.
Hugo continuou ali, sentado. O tempo passou e passou...
O Arauto adormeceu e acordou em um lugar horrível e cheio de pedras negras. Sua mente foi se perdendo, já não racionava, foi lentamente perdendo a noção de tudo.
Em Huram, alguns seres encontraram uma caverna com um esqueleto enorme caído sobre um buraco parcialmente fechado onde, após algumas escavações, foi encontrada uma estranha pedra negra embrulhada em um couro com inscrições em uma língua estranha.
Um deles sacou uma arma e começou a atirar nos outros. A pedra negra seria dele, só dele...

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Arauto do Sangue: A Pedra Negra

Olhando paralisado para aquela pedra negra, Hugo viu tudo que perdera para consegui-la. Matara seu melhor amigo e companheiro de tantas outras aventuras para não ter que dividir a pedra negra que daria poderes incomparáveis ao seu dono.
O sangue de muita gente fora derramado pela posse da pedra. Hugo e Israel, seu melhor amigo, haviam matado uma família inteira para tomá-la. Até um bebe fora morto pela dupla.
Sentiria saudades de Israel, pensava Hugo. Foram muitas aventuras e desventuras até descobrirem a existência da pedra negra citada em um livro de RPG.
Marco, outro parceiro de jogos e algumas aventuras, foi quem lhes falou onde poderia estar a pedra negra do jogo. Havia uma casa próxima de onde moravam em que as pessoas tinham um comportamento assustado e desafiador. Os vizinhos evitavam os moradores da casa que sempre tinha as luzes apagadas fosse qual fosse o horário do dia ou da noite, nem mesmo quando o bebe chorava elas eram acesas. Muitos diziam ouvir sons estranhos vindos da casa e os animais domésticos enlouqueciam e fugiam do contato com os moradores da casa nas raras vezes em que saiam, geralmente a noite.
Marco, por morar mais próximo da casa escura, como todos a chamavam, observara por um bom tempo a casa e seus moradores. Havia um comodo que mesmo a luz do dia não iluminava quando a janela era esquecida aberta. Certa vez viu um dos meninos com a pedra na mão e os olhos fora das orbitas olhando hipnotizado para a pedra negra. Ao seu redor tudo era escuridão. Só se via o garoto e a pedra.
Marco quase morreu de susto quando o garoto olhou para ele. Não conseguia se mexer ou articular palavras, só medo, um terror inexplicável pelo que viu ou imaginou ter visto nos olhos do garoto por um minuto que lhe pareceu toda uma eternidade no inferno. A coisa parou quando o pai do garoto tomou a pedra de suas mãos, o agrediu com um soco e fechou a janela. Quando o pai do garoto tocou na pedra, a claridade tomou conta  de todo o ambiente e Marco julgou ter visto vários seres medonhos olhando em sua direção.
Apavorado, correu e contou para os amigos, que, a partir daquele momento, decidiram sem precisarem falar, que seriam os donos da pedra negra.
Armados até os dentes, Hugo e Israel invadiram a casa e começaram a atirar em tudo que se movia na escuridão agora eliminada pelas lanternas e buracos feitos no teto da casa pelos tiros que a dupla disparava com esse fim. Mataram todos, até o bebe, que mais parecia um rascunho de demônio. O pai foi o ultimo, morreu na porta do quarto medonhamente escuro onde a pedra era guardada.
A pedra estava enrolada em uma espécie de couro onde se viam estranhos caracteres em uma língua cuneiforme, provavelmente escrita de um povo esquecido pelo tempo.
Hugo, ao tocar na pedra, perdeu os sentidos. Israel, mais prudente, pegou na parte coberta pelo couro e nada sofreu, aparentemente. Sentiu vontade de matar o amigo ali mesmo enquanto ele estava desmaiado. Não o fez.
Quando Hugo acordou estava na casa de Israel, que olhava hipnotizado para a pedra negra, parecendo estar em outro lugar. Tão absorto estava que não percebeu a faca em suas mãos e o brilho da cobiça em seu olhar. Foram tantas facadas desferidas no amigo que Hugo perdeu a conta.
O sangue de Israel espirrou na pedra, que passou a brilhar em seu tom escuro, parecendo viva.
Hugo só conseguia pensar, não podia se mover. A pedra o possuíra, disso ele tinha certeza. Viu que nunca seria dono dela e sim o contrário, estava irremediavelmente preso a ela enquanto durasse sua vida.
Sangue, ha muito tempo ela não era banhada por ele.
Seus malditos guardiões a privaram por seculos do sangue.
Precisava estar banhada em sangue para dominar o mundo e permitir a vinda deles para esse planeta.
O sangue da humanidade alimentaria seus senhores por meses...
Precisava de seu mais novo escravo para começarem os rituais de sacrifício e muito sangue humano para estar mergulhada.
Ordenou a Hugo que destruísse o pergaminho sagrado que a impedira de dominar completamente a família que era sua guardiã e sabia controlar sua ânsia por sangue humano. Por muitas gerações eles a deixaram sem sangue, o que diminuia sua força. Usara os olhos de um dos guardiões para fazer contato com Marco naquele dia.
O normal seria um dos guardiões ter matado Marco para que não dissesse a ninguém que vira a pedra negra. Erro que custou a vida de todos os guardiões que a vigiavam dia e noite.
Hugo saiu da casa com a pedra no bolso interno de seu sobretudo negro, invadiu um berçário e sangrou todas as crianças que viu, coletando o sangue derramado em uma banheira onde cuidadosamente colocou a pedra. Policiais invadiram o prédio, mais sangue que Hugo ofereceu a pedra negra, que já não cabia na banheira. Ela crescera até o tamanho de um homem. Dentro da pedra já se viam vultos aguardando...
A pedra negra emitia um som rouco e durador que atraiu centenas de pessoas ao prédio. Elas faziam fila para entrar no berçário e se ajoelhavam na frente da pedra para que Hugo lhes decepasse a cabeça, fazendo seu sangue jorrar, encharcando-a cada vez mais de sangue.
Hugo chorava, queria fugir dali mas não podia, sua vontade não contava, era a pedra no comando.
O poder da pedra aumentava exponencialmente na medida que era banhada em sangue. Agora já eram milhares na fila para serem sacrificados.
Hugo viu o primeiro deles sair da pedra, um horror indescritível tomou conta de seu ser. Para descrever o indescritível não existem palavras. Ele teria infartado não fosse a pedra a mante-lo sob controle.
O olhar da criatura era um passeio nos nove circulos do inferno, não viu outras emoções, só um ódio indescritível pelos seres humanos e uma fome insaciável por sangue.
Sentiu que morreria naquele momento.
A criatura o olhou por mais um instante e ele soube da terrível verdade. Não morreria. Depois de trazer todos para servirem o próprio sangue para a criatura e seus companheiros teria seu corpo modificado para buscar mundos em companhia da pedra negra onde existissem humanóides para sevirem de alimento.
Seria o arauto da maldita raça de tomadores de sangue.
Alguns que chegavam na fila tinham as cabeças arrancadas pelas próprias criaturas em sua sede insaciável. Já havia 12 deles no berçário. O cheiro de sangue era  insuportável. Outros homens estavam sendo usados para empilharem os cadáveres, seriam drenados por ultimo.
A pedra parara de crescer e se tornara avermelhada em um tom próximo ao do sangue humano.
Os 12 seres monstruosos não paravam de beber o sangue nem de matar as pessoas que formavam a fila tal qual gado em abatedouro, sabiam que iriam morrer mas não podiam lutar contra isso.
Alguns meses depois as criaturas eram 1200 e a raça humana estava próxima da extinção.
Hugo e a pedra negra foram enviados a uma lua em uma galáxia distante onde seres muito parecidos com os humanos dançavam e brincavam em torno de um templo de pedras circulares...